Mahavidya Yoga

A Assim Denominada Guerra Racial nos Vedas
do livro The Myth of Aryan Invasion of India pgs 22 a 33 do Dr. David Frawley (Vamadeva Shastri), www.vedanet.com American Institute of Vedic Studies. Tradução de Flávia Venturoli de Miranda com autorização do autor   Setembro/2010
04/10/2012

 Pensava-se que o povo védico tinham sido um raça de pele clara como os europeus, devida idéia védica de uma guerra entre luz e escuridão. Essa idéia era sustentada pelo fato do povo védico serem considerados como crianças de luz ou crianças do sol. Contudo, esta idéia de uma guerra entre luz e escuridão existe na maioria das culturas antigas tanto indo-européias como não, inclusive entre egípcios e persas, cuja antiga religião do zoroastrismo é principalmente dominada por esta dualidade. Isto também se reflete dentro da batalha bíblica entre Deus e Satanás. Por que não interpretarmos estas tradições como guerras entre pessoas de peles claras e escuras? É uma metáfora mítica, não uma declaração cultural. Todas as afirmações, nas quais se referem às pessoas hostis como escuras nos Vedas, simplesmente fazem parte desta analogia luz-escuridão, os demônios da escuridão contra o deus sol e seus poderes de luz.

 

Além disso, nenhum rastro real de uma raça branca foi achado dentro Índia antiga.

 

Antropólogos observaram que a população presente de Gujarat é mais ou menos composta dos mesmos grupos étnicos como se nota em Lothal em 2000 aC. Da mesma maneira, dizem que a população atual do Punjab é eticamente a mesma que a população de Harappa e Rupar de quatro mil anos atrás. Linguisticamente, na atualidade a população de Gujarat e Punjab pertence ao grupo da língua indo-ariano falada. A única conclusão que pode ser tirada das evidências antropológicas e linguísticas apresentadas acima é que a população de Harappa no Vale de Indus e Gujarat em 2000 aC eram compostas de dois ou mais grupos, o mais dominante entre eles tinham afinidades étnicas muito íntimas com a população de fala indo-ariano atual da Índia.

Em outras palavras não há nenhuma evidência racial de uma invasão indo-ariano da Índia, ou de qualquer população que se dirigiu do norte da Índia para o sul, mas só de uma continuidade do mesmo grupo das pessoas que tradicionalmente se consideravam ser ariano na cultura. Arqueologicamente, não há evidência de uma guerra racial e a evidência literária védica apenas parece ser um entrelaçamento de metáforas. Seria como tornar a prece védica que nos conduz da escuridão para luz em uma prece para nos salvar das pessoas pele escura e aliar-nos com esses de pele clara!

As batalhas mencionadas no Rig Veda, entre os aryas[1] e os dasyus[2], são em grande parte entre os “cinco povos” (pancha manava[3]). Estes cincos são identificados como o turvashas[4], yadus[5], purus[6], anus[7] e druhyus[8] que os Puranas descrevem como originados dos cinco filhos de Yayati[9], um rei védico anterior da dinastia lunar descendente de Manu, e o filho de Nahusha. Estes povos, tanto os dasyus como os arianos (arya), também eram chamados de nahushas no Rig Veda. Dos cinco, os principais povos do Rig Veda são os purus que normalmente se situavam no rio de Sarasvati ou na região central. Os yadus são localizados ao sul e a oeste no Gujarat, Rajasthan e Maharashtra até Mathura ao norte. Os anus ficam ao norte. Os druhyus estão ao oeste e sudeste de turvasha, como mencionados nos Puranas.

aryavartha - terra dos aryas

Na história original purânica havia dois grupos de povos, os devas[10] e os asuras[11], ou seja, os povos divinos e os não divinos, que tiveram vários conflitos. Ambos tinham gurus brahmins, os angirasas para os suras (devas) e os bhrigus para os asuras. Aos dois grupos de brahmins poderíamos acrescentar, que eram responsáveis por muitos ensinamentos na Índia antiga, inclusive das Upanishads. As batalhas entre os devas e asuras envolveram uma luta de seus gurus.

Devas a direita e Asuras a esquerda durante o batimento do leite.
 

Rei Yayati, o pai dos cinco povos védicos e um seguidor, dos angirasas, teve duas esposas, Devayani, a filha de Shukra, dos videntes de bhrigu, e Sharmishta, a filha de Vrishaparvan, rei dos asuras. Turvasha e Yadu eram filhos de Yayati com Devayani dos bhrigus. Anu, Druhyu e Puru eram os filhos de Yayati com Sharmishta dos asuras. A história de Yayati mostra que os cinco povos védicos nasceram de uma aliança de reis aryas e asuras, e de seus videntes Angirasa e Bhrigu.

 

Vrishaparvan e Shukra parecem ter vindo do sudoeste da Índia, Gujarat, como os bhrigus eram os descendentes de Varuna, deus do mar, e sempre foram associados com esta região de Índia (por exemplo, sua cidade de Bhrigukaccha ou Baruch moderno perto de Baroda). Na história purânica, seus territórios limitaram-se naqueles de Yayati onde, enquanto caçava, aconteceu o relacionamento com Devayani e Sharmishta.

 

Consequentemente, três dos cinco povos védicos originais tiveram sangue asuras por parte de mãe. Puru, cujo grupo, no final das contas, predominava, teve sangue asura, considerando que os yadus que foram fortemente criticados nas literaturas védica e purânicas, não tinham sangue asura, porém os brahmins tinham. Nesta história, vemos que os dois grupos de povos – pensados na teoria de invasão ariana como os arianos invasores e os povos indígenas - tiveram a mesma religião e ascendência.

 

Este cinco povos foram nomeados arya e dasyu que significa algo como bom e mau, santo e profano, de acordo com seus comportamentos. Suas designações podem trocar rapidamente. Os descendentes de um rei ariano podem ser chamados de dasyu ou seu equivalente (rakshasa, dasa, asura, etc.), se seus comportamentos mudam.

dasyu - inimigo, ladrão

Por exemplo, na mais importante batalha no Rig Veda, a famosa batalha dos dez reis (Dasharajna), os vitoriosos sudas, considerados como um rei puru, situado no rio de Sarasvati, inclui entre seus inimigos o grupo chamado de dasyu dos cinco povos védicos como o anus, druhyus, turvashas, e até mesmo os purus. Porém, os filhos dos sudas caem e, na literatura dos Brahmanas e dos Puranas, são chamados de rakshasas ou demônios por matar os filhos do grande rishi Vasishta. Enquanto isso os kavashas, uma família de vidente, listados entre os inimigos derrotados dos sudas aparece novamente dentro dos Brahmanas e das Upanishads como os sacerdotes principais da famosa dinastia de reis de kuru, particularmente Tura Kavasheya, o purohit[12] do Rei Janamejaya. Os bhrigus que estavam entre os derrotados pelos sudas, aparecem como professores em destaque no conhecimento védico e purânico posterior como já mencionado. Tais trocas seriam impossíveis se arya e dasyu fossem simplesmente termos raciais. Os arianos e os dasyus não são uma divisão racial ou linguística mas uma divisão religiosa ou espiritual que muda junto com comportamento humano.

 

Batalhas védicas estão principalmente entre os povos védicos que são divididos em vários reinos, grande e pequeno, muito como se encontra no próprio Mahabharata. Povos hostis geralmente são os kshatriyas védicos ou a nobreza entre este cinco povos. Divodasa, outro grande rei védico da linha puru, derrota, Turvasha e Yadu no Rig Veda. Um rei chamado Divodasa, nos Puranas, derrota os yadus. No Mahabharata, Mandhata, um grande rei védico e dasyu conquistador, derrota os druhyus, o rei de dinastia lunar dos gandharas ou Afegãos. Parashurama, o sexto avatar, do deus Vishnu, não só castiga os yadus (Kartavirya Arjuna) mas todos os kshatriyas. O grande rei da dinastia solar Sagara também derrota os yadus que tinham se aliados com muitos povos estrangeiros.

 

As principais batalhas védicas e purânicas são, por consequência, entre os purus e seus aliados (como os ikshvakus) e os yadus e seus vários aliados (principalmente os turvashas, mas às vezes com os druhyus). Isto é semelhante à batalha deva-asura como se colocam os povos do Sarasvati ao norte contra esses do sudoeste, mas novamente como uma batalha entre povos aparentados. No Rig Veda, primeiramente, Indra torna Turvasha e Yadu grandes e então os humilha diante dos purus.

 

Rama, o sétimo avatar, derrota Ravana que dizem ser um descendente brahmin do rishi como também um rakshasa (demônio). O irmão de Rama, Shatrughna derrota Lavana, o amigo de Ravana, em Mathura, a região de yadus que também dizem ser é um rakshasa. Esta conexão entre Lavana e Ravana sugere que o próprio Ravana era um yadu, um migrante de Gujarati para o Sri Lanka, não um dravidiano. A primeira onda de arianos a vir para o Sri Lanka foram do Gujarat e consequentemente yadus. Por isso, Ravana sequestra Sita no rio de Godavari que também era na região os yadus. Enquanto isso o outro irmão de Rama, Bharata, conquista Gandhara, a terra do druhyus.

Ravana

Os pandavas, com Krishna, o oitavo avatar, derrotam seus próprios parentes, os kauravas que dizem ser a encarnação de vários demônios, em cujo ao lado estão os próprios gurus dos pandavas como Bhishma e Drona que eles devem também matar. Os kauravas são, além disso, os descendentes de uma mãe gandhara ou druhyu, Gandhari. Krishna também mata Kansa, um rei mau de yadu da sua própria família.

 

Outros exemplos proeminentes acontecem quando brahmins são os inimigos ou os videntes lutam entre si. Vritra, o inimigo de Indra, o maior deus védico, dito nos Brahmanas e Puranas deve ter sido um brahmin e Indra teve que se expiar pelo pecado de matar um brahmin depois do matá-lo. Esta idéia volta aos Vedas donde Vritra é o filho Tvashtar, um dos deuses védicos, a deidade patrona do sacrifício. Muitos dos conflitos nos Puranas são entre os videntes Vasishta e Vishvamitra, ambos honrados ao longo da literatura de Índia como grandes videntes. Este conflito volta ao tempo de sudas onde ambos competiram para se tornar purohit ou sacerdote chefe.

 

Indra derrotando Vritta

Textos védicos, como o Brahmanas, usam os dasyus como descendentes capturados do rei védico Vishvamitra, o mais velho de seus filhos; fazendo-lhes os descendentes mais velhos de reis védicos e videntes. Isto lembra uma das histórias de Yayati onde ele era Puru, o filho mais jovem que herdou seu reino e o seus filhos mais velho Yadu e Turvasha tornaram-se hostis.

 

Mleccha[13] é outro termo que depois se referiu às pessoas, que falavam um idioma diferente ou aos estrangeiros, era primeiro usado na literatura nos Sutras, Brahmanas e Mahabharata para pessoas de Índia ocidental de Gujarat para Punjab (reinos de anu, druhyu e predominância de yadu) que se tornou temporariamente uma região de práticas impuras. Tais pessoas eram obviamente os oradores de idiomas indo-europeus e era parte da mesma cultura. Estas mesmas regiões incluíram o reino do Deus Krishna em Dvaraka e a famosa cidade de Takshashila em Gandhara da qual o grande gramático Panini veio, o que mostra que tal termo era apenas temporário.

 

A exclusão dos povo védicos e daqueles de diferente características ou idiomas étnicos de língua não-indo-europeus é um suposição que deriva da teoria de invasão ariana e seu corolário de raça/língua ariana. Índia védica provavelmente era um cultura pluralista, como o panteão védico pluralista. Os Vedas são os únicos livros que sobrevivem desta era. Isto, porém, não significa que outros livros ou ensinamentos não chegaram a existir, inclusive com outros idiomas. É possível que ao menos cinco povos védicos inclusive grupos que falavam diferente, até mesmo idiomas não-indo-europeus, ou pertencentes a diferente grupos étnicos ou raças diferentes. Havia outras tradições arianas que derivam de ou alternativa para os védico como o zoroastrismo, ou as tradições de shramanas que deram à luz Budismo e Jainismo. Uma vez a idéia de invasão ariana é terminada, devemos reconhecer a diversidade de cultura védica e ariana. Não há nenhuma necessidade para estereotipar isto através de raça, idioma ou até mesmo religião, particularmente quando a tradição que veio disto é isto muito diversa.

 

Assim, os povos védicos devem ser excluídos estas características étnicas diferentes ou de fala de idiomas não-indo-europeus, pois isto são suposição derivada da teoria de invasão ariana e seu corolário de raça/língua ariana. A Índia védica provavelmente era um cultura pluralista, como um panteão védico pluralista. Os Vedas são os únicos livros sobreviventes desta era. Contudo, não significa que outros livros ou ensinamento não existiram, inclusive aqueles em outros idiomas. Pode ser que os cinco povos védico incluíram grupos que falavam diferentemente, até mesmo de idiomas não-indo-europeus, ou pertencessem a diferentes grupos étnicos ou diferentes raças. Há outras tradições arianas que derivam ou são uma alternativa védicas como o zoroastriamo, ou as tradições de shramana que deram à luz ao Budismo e Jainismo. Uma vez, que se desiste da idéia da invasão ariana, devemos reconhecer a diversidade da cultura védica e ariana. Não há necessidade para estereotipá-la através de raça, idioma ou até mesmo religião, particularmente quando a tradição que veio dela é muito diversa.

 

Os Puranas fazem os descendentes de dravidianos da família védica de Turvasha, um do povos védicos mais velho. Estes historiadores antigos não sentiam qualquer necessidade para limitar o povo védico em um grupo linguístico. Os Vedas retratam a grande região do norte da Índia que deve ter sido como um complexo cultural como hoje. Na realidade os Puranas consideram os chineses, os persas e outro povos não-índicos como descendentes de reis védicos. Os Vedas vêem todo os seres humanos como descendentes de Manu, seu primeiro e legendário homem. Dizem que os videntes védicos não só geraram os seres humanos mas a criação animal como também os reinos dos deuses e dos demônios.

 

Podemos comparar as guerras védicas com aquelas da Europa. Porém tais batalhas ferozes eram como os conflitos entre os católicos e protestantes, ou entre os alemães e os franceses, luta entre povos e religiões aparentados, que tiveram também longos períodos de paz entre si, além dos períodos mais dramáticos de conflito. Não temos que trazer a idéia de invasores externos para explicar estes conflitos e certamente a literatura védica e purânica não apóia isto.

 

 

 

[1] arya – traduzido pelo dicionário Monier Williams como bom, excelente, verdadeiro, gentil, senhor, mestre, favorável.

[2] dasyu – traduzido normalmente como os inimigos dos deuses, ou povos bárbaros segundo o dicionário Monier Williams

[3] manava – descendentes de Manu (o primeiro homem da Índia, como se fosse o Adão judaico-cristão)

[4]Turvasha -  nome de um heróis e ancestral dos árias (chamado Yadu) formando a raça turvashayadu, no dicionário Monier Williams

[5]Yadu – nome de um herói mencionado junto com Turvasha, que foram preservados por Indra durante uma inundação, no poema épico ele é um dos filhos de Yayati e é irmão de Puru, Turvasu. Krishna é um descendente dos yadus. São também chamados de filhos de Vasu, rei de Cedi, ou o filho de Haryashva, no dicionário Monier Williams.

[6]Puru – significa muitos, É o nome de um príncipe (filho de Yayati e Sharmishtha e o 6º monarca da dinastia lunar) ou filho de Vasudeva e Sahadeva, ou filho de Manu Chakshusha e Nadvalala

[7]Anu – um homem não arya, um rei filho de Yayati

[8]Druhyu - filho de Yayati e portanto irmão de Yadu.

[9]Yayati – nome de um celebrado monarca da dinastia lunar, filho do rei Nahusha a quem sucedeu através de suas 2 esposas teve 2 linhagens de raças lunares Yadu (como o filho Devayani, que era filha de Ushanas ou Shuskra) e Puru (como filho de Sharmarmishtah, que era filha de Vrishaparvan). Tanto Yayati como Nahusha são autores do Rig Veda, Monier Williams.

[10] deva – divino, deus, associado com os suras (do sol – surya)

[11] asura – ausência de sol,

    asura – espiritual, divino, espírito supremo, inimigo dos deuses (suras), daityas (filhos de Diti com Kashyapa)

[12] purohita – sacerdote familiar

[13] mleccha – bárbaros, estrangeiros

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